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“Linhares foi construída em função da cultura do cacau”, diz Emir Filho

19 de Agosto de 2017 Autor: Caroline Pereira

“Linhares foi construída em função da cultura do cacau”, diz Emir Filho

No ano em que Linhares comemora os seus 217 anos, celebra-se também o centenário das atividades cacaueiras no município. E um dos principais produtores do fruto, Emir de Macedo Gomes Filho, acredita que o desenvolvimento da cidade deve muito à cultura do cacau. Emprego, geração de renda e até preservação do meio ambiente são algumas das principais contribuições da cacauicultura para o município, na visão de Emir.

O fruto também tem ajudado a projetar o nome de Linhares no mercado internacional. Recentemente, a amêndoa de cacau produzida por Emir foi selecionada, pela segunda vez, para ser destaque no Salão do Chocolate, em Paris, evento que é tido como a Copa do Mundo do Chocolate e que vai premiar as 12 melhores amostras. Vale lembrar que o cacau produzido em Linhares será o único representante brasileiro no evento.

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, o produtor fala sobre o potencial econômico do fruto, reafirma a contribuição do mesmo para o desenvolvimento de Linhares e relembra a trajetória de seu pai, o ex-prefeito de Linhares Emir de Macedo Gomes, que foi responsável por introduzi-lo nas atividades agrícolas. Confira: 

Jornal CE: Como o cacau colaborou para o desenvolvimento do município de Linhares?

Emir Filho: Essa pergunta me fez lembrar uma frase de uma professora de história, que me comoveu e dizia que “Linhares é um subproduto do cacau”. Ou seja, no passado, a cidade de Linhares foi construída em função da cultura do cacau. Meu pai, que atuou como representante da CEPLAC (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira), no Governo do Estado, conseguiu muitos recursos que foram utilizados para a construção de escolas, da eletrificação rural, do próprio Hospital Rio Doce, entre outros. Então, o desenvolvimento de Linhares deve muito à cultura do cacau. Hoje, nós temos um cenário desfavorável, com um preço deprimido, mas acho que a cultura do cacau já contribuiu muito para o crescimento econômico e o desenvolvimento da nossa cidade. Além da geração de emprego, ela também promoveu a preservação do meio ambiente. Todo esse remanescente de mata atlântica existe em função da cultura do cacau. É uma planta amiga do meio ambiente. 

Jornal CE: O fruto ainda tem um grande potencial econômico?

Emir Filho: Sim. Na agricultura, tudo é cíclico. Nós estamos num momento de preço ruim, mas isso não quer dizer que não dá para trabalhar nem investir na atividade do cacau. Acho que temos boas perspectivas, até porque o consumo de chocolate no mundo está crescendo muito. Para se ter uma ideia, na Europa, o consumo chega a 12 quilos por pessoa ao ano. No Brasil, está chegando agora aos 2,5 quilos de consumo per capita. Na Argentina, aqui do lado, o consumo é de 5 quilos por pessoa. Ou seja, ainda temos um potencial de crescimento enorme para explorar. Além do que, é possível aproveitar 100% da fruta do cacau, e nós estamos aproveitando apenas 10%, que é referente às amêndoas, que fazem o chocolate. 

Jornal CE: E o que mais daria para ser feito?

Emir Filho: É possível aproveitar a casca para fazer adubo orgânico e ração animal. Há alguns anos, vendi cascas que foram usadas para a confecção de artesanato, no Rio de Janeiro. A placenta do cacau, que segura as amêndoas, pode ser usada para a produção de doces cristalizados. É possível ainda aproveitar a poupa, que faz suco e mel. Precisamos trabalhar com o subproduto e agregar valor ao nosso trabalho. 

Jornal CE: Em 2013, o seu cacau ficou entre os 50 melhores da Copa do Mundo do Chocolate, que aconteceu em Paris, na França. E neste ano, você vai buscar uma nova premiação. Como aconteceu o processo seletivo?

Emir Filho: Foram 166 amostras de 40 países. Dessas 166, tinham sete do Brasil e eu era o único representante do Espírito Santo. Os outros cinco eram da Bahia e um do Pará. Numa segunda fase do processo seletivo, as 166 amostras foram reduzidas para 50, e destas, só ficou a minha do Brasil. Ou seja, o cacau de Linhares e do Espírito Santo vai representar o nosso país na competição. Os outros seis produtores brasileiros, infelizmente, foram eliminados. Ao mesmo tempo em que fiquei contente com essa conquista, também fiquei sentido, porque acho que outros produtores – que são dedicados e investem em tecnologia – também mereciam participar desse concurso. Por fim, só restou o cacau do Espírito Santo e já estamos entre os 50 melhores do mundo. Acho que, seguramente, neste ano, o cacau de Linhares foi escolhido como o melhor do Brasil. Em outubro, haverá outra classificação. Dos 50 selecionados, 12 serão premiados. Nós ainda temos chances. Estamos concorrendo e estamos no páreo. 

Jornal CE: Quais seriam as principais vantagens dessa premiação?

Emir Filho: O concurso é uma vitrine internacional e o mundo inteiro estará observando. Se eu conseguir uma premiação, poderei atrair o interesse de compradores de fora e negociar direto com os chocolateiros, e não mais entregar o cacau para o atravessador, como faço hoje. Posso conseguir uma ponte direta e valorizar mais o produto. A partir do momento em que se tem uma amêndoa reconhecida internacionalmente, é possível conseguir preços melhores. E o objetivo é exatamente esse: atrair novos compradores e abrir novos mercados. 

Jornal CE: Como se deu o seu envolvimento com a cultura do cacau?

Emir Filho: Acho que a história da minha vida se mistura com a história da cultura do cacau. Meu avô, o Manuel Salustiano, foi, além de prefeito de Linhares, um dos percussores da cacauicultura local. Ele era apaixonado pela cultura do cacau e transferiu essa paixão para o meu pai. Desde cedo, fui criado nesse meio rural, andando nas roças de cacau. No entanto, comecei a trabalhar, de fato, na cacauicultura um pouco tarde, aos 28 anos de idade. Na época, meu pai me deu uma propriedade de cacau para administrar e foi assim que começou esse amor desenfreado que tenho por esse trabalho. A seiva do cacau entrou em minha veia. Sou apaixonado por essa cultura e é esse o meu trabalho, minha fonte de renda e minha razão de vida, além, é claro, da minha família, que vem em primeiro lugar. 

Jornal CE: É impossível falar da sua história de vida e de trabalho sem mencionar o seu pai. Que lembranças você tem dele? Quais foram os legados de Emir de Macedo Gomes para o município de Linhares?

Emir Filho: Meu pai era um médico, um humanitário, uma pessoa de um coração muito grande. Ele chegou a Linhares apenas com a sua maleta de trabalho, mas também com muito conhecimento e bondade. O juramento que ele fez como médico foi cumprido até o seu último dia de vida. Se as pessoas podiam pagar pela consulta, ele cobrava, mas quando não podiam, ele não fazia distinção e atendia da mesma forma. Acho que foi dessa maneira que ele acabou conquistando o coração dos linharenses: com a sua generosidade, bondade e fazendo o bem. Meu pai ingressou na vida pública e permaneceu nela por 28 anos. Entretanto, sua política era feita por idealismo, por uma causa, pelo prazer de servir buscando um bem comum. Hoje, infelizmente, a política que vemos por aí está baseada no amor ao dinheiro. A política feita pelo meu pai buscou o desenvolvimento de sua terra e era feita com base no amor pela sua gente. Acho que ele deu uma contribuição muito grande ao município de Linhares e cumpriu a sua missão. Ele é o meu ídolo, meu ícone e minha fonte de inspiração. 

Jornal CE: Seu pai recebeu diversas homenagens recentemente...

Emir Filho: Sim. Uma delas foi feita no aniversário do Saae. Ele foi o prefeito que assinou a criação da autarquia, em 1957. No dia da homenagem, lembrei de uma frase em que ele me dizia: “Meu filho, na vida as pessoas trabalham e lutam... muitos pelo dinheiro, muitos pela fama. Mas a vida faz mais sentido quando a gente luta por ideais, porque eu nunca vi ninguém ser homenageado, após a morte, por sua riqueza ou fortuna que deixou, mas sim pelo seu legado”. Meu pai realmente deixou um legado muito grande em nossa cidade. Tanto é que tem inúmeras obras que levam o seu nome. As pessoas sempre se lembram dele com carinho e com saudades justamente por causa de seu gesto humanitário e de sua bondade. 

Jornal CE: E hoje? Quais são as principais oportunidades e desafios da cidade de Linhares, em sua opinião?

Emir Filho: Acho que Linhares é uma cidade que está crescendo muito. Recentemente, participei do 2º Fórum da Liberdade e Empreendedorismo, que aconteceu em Linhares, e vi o empreendedorismo que está nascendo entre os jovens. Apesar da crise econômica e política que nós estamos enfrentando, acho que, no momento de crise, temos que tirar a letra S dessa palavra e transformá-la em crie. Temos que criar, reinventar e buscar fazer da dificuldade novas oportunidades.  Penso que o otimista levanta e age. Já o pessimista senta e lastima. Não adianta a gente ficar no muro das lamentações; temos que trabalhar! E a melhor maneira de administrar a crise é com trabalho.  Falo por mim. Quando a vassoura-de-bruxa atingiu o cacau em fevereiro de 2001, consegui conviver com o problema por seis anos, mas em 2007 a doença devastou a região cacaueira. Naquela ocasião, eu tinha três opções: abandonar a propriedade e recuperá-la no futuro, algo que exigiria muito dinheiro; colocar a propriedade à venda; ou enfrentar o problema e lutar para salvar o patrimônio da família. Eu preferi a terceira opção e tomei a decisão certa. Só com trabalho, dedicação, resiliência e criatividade é que a gente realmente vence os momentos de dificuldades. Nossa cidade está crescendo e as pessoas que vêm para cá encontram muitas oportunidades de se realizar profissionalmente. 

Jornal CE: Que mensagem você gostaria de deixar aos linharenses, pelo aniversário da cidade, e aos demais produtores de cacau, pelo centenário da cacauicultura?

 

Emir Filho: Acreditem em seus sonhos, nunca desistam e lutem sempre por aquilo que vocês acreditam. Todo projeto pode ser vitorioso, desde que a pessoa se entregue, se dedique, trabalhe bastante, com afinco, e principalmente com muita paixão. É o que eu procuro fazer.  

FOTO: CAROLINE PEREIRA



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