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“Preocupo-me em formar cidadãos, e não apenas atletas”, diz Kelley Bonicenha

08 de Julho de 2017 Autor: Redação CE

“Preocupo-me em formar cidadãos, e não apenas atletas”, diz Kelley Bonicenha

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, a treinadora de vôlei fala sobre os desafios e as vitórias na modalidade esportiva, que ganha cada dia mais fãs em Linhares em todo o Brasil

Um dos principais nomes do esporte linharense na atualidade é, sem dúvida, o de Kelley Bonicenha. Além de contar com grandes títulos na carreira como treinadora de vôlei – dois deles de nível nacional –, ela também é conhecida por desenvolver novos talentos numa modalidade que vêm ganhando cada dia mais fãs no Brasil. Assim, o trabalho de Kelley dá a diversos jovens do município a chance de atuar numa área bastante promissora.

Formada em Educação Física pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), Kelley comanda um centro de treinamento que leva o seu nome, cuja missão é dar espaço para jovens que querem aprimorar ou até mesmo aprender as técnicas do vôlei.

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, a treinadora fala sobre suas conquistas, a origem da paixão pelo esporte e seus planos em relação ao vôlei linharense. Confira: 

Jornal CE: Quando e como começou sua paixão pelo vôlei?

Kelley Bonicenha: Essa paixão é antiga. Comecei a jogar com 11 anos, no portão da minha casa, juntamente com os amigos, mas foi no colégio que eu aprimorei os fundamentos com a ajuda de alguns professores, como Francisco Calmon, na Escola Elza Roni. Sob o comando dele, disputei o primeiro campeonato de voleibol da minha vida. Também cito os professores Marcos Silva, o Marcão, que me deu aulas no Colégio Afrânio Peixoto, e Élcio Carvalho, do Estadual, como meus principais influenciadores. 

Jornal CE: Quem foi seu maior incentivador no esporte?

Kelley Bonicenha: Com certeza foi o saudoso professor Heleno Scolforo, que deu aulas no Colégio Adventista e também no Estadual. Ele foi meu técnico de futsal, quando eu jogava como goleira. Ele sempre me dizia: ‘Bonicenha, você tem futuro. Vai ser jogadora ou professora de Educação Física’. Com ele, tive a oportunidade de ser aluna, atleta e anos depois, colega de trabalho. Pude agradecê-lo em vida por tudo o que ele fez por mim. Se hoje amo minha profissão, amo meus alunos e meus atletas, foi porque me espelhei nele. O professor Heleno era uma pessoa singular. Um verdadeiro pai pra mim. Ele me incentivou na caminhada e pude dedicar o meu primeiro título de campeã brasileira a ele. Tenho muitas saudades do tio Heleno.  

Jornal CE: Você já enfrentou alguma dificuldade vivendo do esporte?

Kelley Bonicenha: As dificuldades fazem parte da vida esportiva e comigo não foi diferente. Enquanto atleta de futsal, consegui ser goleira da seleção capixaba. Contudo, para ir aos treinos em Vitória, tive que abrir mão de muitas coisas e passar por muitas outras. Graças a Deus, tenho uma família que me entende, me apoia e que bancava meus custos nessa busca por um sonho.  Anos depois, como treinadora de voleibol, pude perceber o que de fato era dificuldade e o que é trabalhar sem remuneração, por amor ao esporte. Na verdade, sei o que é pagar para trabalhar. Muitas vezes, tive que comprar material esportivo, comida, passagens, tênis, meias e muitas outras coisas para os meninos que treinavam. Mas não me arrependo de nada e faria tudo de novo, só pra vê-los sorrir. 

Jornal CE: Quais foram suas maiores conquistas?

Kelley Bonicenha: Enquanto treinadora, conquistei dois títulos nacionais no voleibol: campeã brasileira na modalidade de voleibol infantil masculino (12 a 14 anos) em Natal (RN) no ano de 2013 e campeã brasileira na modalidade de voleibol juvenil masculino (15 a 17 anos) em João Pessoa (PB) em 2016. Tenho ainda outros sete títulos estaduais. 

Jornal CE: Você chegou a fazer parte da seleção brasileira?

Kelley Bonicenha: Fui convocada para fazer parte da seleção brasileira escolar e permanecer um tempo em Saquarema (RJ), casa do voleibol brasileiro. Entretanto, fiquei na cidade apenas uma semana, pois o objetivo de montar um campeonato para essa categoria não seguiu adiante. Mesmo assim, estudei e trabalhei muito nesse curto período. Trago comigo uma bagagem daqueles dias, em que pude aprender com os colegas e principalmente com Percy Oncken, técnico da Seleção Brasileira Infanto Juvenil na ocasião. 

Jornal CE: Quando decidiu se tornar treinadora?

Kelley Bonicenha: Terminei a faculdade de Educação Física na Ufes em 2004 e já no ano seguinte comecei a trabalhar como professora na Escola Municipal José Modeneze, no bairro Canivete. Naquele tempo, pude perceber que no bairro não havia pracinha, quadra, enfim, nenhum local de lazer para os nossos estudantes, especialmente no período após as aulas. Foi então que decidi ensinar voleibol, no pátio da escola, em meio às britas, chuva, sol quente, material precário, mas com uma turma cheia de disposição e vontade de aprender. Já no primeiro ano de treinamento, consegui classificar a equipe feminina e masculina da escola para grande final estadual. E desde então, todos os anos, sempre estive em uma disputa nas etapas finais do campeonato capixaba.  

Jornal CE: Você também é árbitra, certo?

Kelley Bonicenha: Sim, essa é minha outra paixão. Fiz o curso no ano 2000, no período em que estava na faculdade. Fico dividida entre a prancheta de treinadora e o apito de árbitra. Aliás, sou a única mulher no Espírito Santo que conta com o título de árbitra nacional. Porém, como na maioria das vezes atuo como técnica, essa função de árbitra fica um pouco de lado, mas quero voltar a atuar e tentar chegar ao nível internacional da carreira. Já participei de três mundiais numa equipe de arbitragem e ainda atuo em campeonatos brasileiros. Mas sei o quanto é complicado estar nos dois lados. Já deixei de trabalhar como árbitra, recebendo dinheiro, para atuar como técnica e de graça. Se me perguntarem o que eu prefiro fazer, não tenho condições de responder, pois são de fato duas paixões. Enquanto eu conseguir conciliar as duas coisas, vou seguindo em frente. 

Jornal CE: Como surgiu o Centro de Treinamento de Voleibol Kelley Bonicenha? Quem pode treinar e onde são os treinos?

Kelley Bonicenha: O projeto surgiu em 2005, porém não tinha esse nome. Passamos por diversas opções, até chegar no CTVKB (Centro de Treinamento de Voleibol Kelley Bonicenha). Nesse ano, não estou treinando a equipe escolar. Atuo apenas com uma equipe juvenil, que inclui meninos acima de 17 anos e que disputam voleibol de quadra e de praia. Resolvi fazer um time adulto do nosso município e vários atletas, que passaram pelo CTVKB desde sua fundação, estão nesse grupo. O CTVKB está aberto para a comunidade linharense. Nossos treinos funcionam nas noites de segunda-feira, na quadra do Shell, e de terça-feira, na quadra da escola Emir de Macedo Gomes. Aos sábados também temos treinamento, mas sem local e horário fixos, porque dependemos da disponibilidade dos atletas que trabalham. Hoje, o CTVKB tem a parceria do nosso patrocinador, que é a Escola de Idiomas CNA, e da Prefeitura Municipal de Linhares.  

Jornal CE: Você também atua no Projeto Campeões do Futuro?

Kelley Bonicenha: Sim. Ensino meninos e meninas de 10 a 16 anos, toda quarta e sexta-feira, de 7h30 às 17h30 nas modalidades voleibol e vôlei de praia. 

Jornal CE: Qual a sua relação com os meninos? Você se sente orgulhosa como profissional e também como pessoa quando vê a mudança de vida deles?

Kelley Bonicenha: A minha relação com os atletas é excelente. Sou apaixonada por eles. Luto por cada um e eles sabem que dou carinho na hora que tem que dar, mas quando é para puxar a orelha, também não alivio. Procuro sempre orientá-los no caminho do bem, mostrar que o esporte tem esse papel. E quando os vejo brilhando lá fora nos campeonatos, me realizo. Com certeza o que não consegui como atleta, quero que eles consigam. Sei que a maioria não vai chegar a ser jogador profissional, porque infelizmente a altura no voleibol atual é muito cobrada. Não basta ser habilidoso, infelizmente. Mas sei que a grande maioria que entra no CTVKB aprende coisas que levarão para o resto da vida. Preocupo-me em formar cidadãos, e não apenas atletas. 

Jornal CE: Que mensagem você deixaria para os governantes com relação ao incentivo ao esporte e qual você deixaria para meninos e meninas que têm o sonho de viver do vôlei (e outras modalidades)?

Kelley Bonicenha: Aos governantes, gostaria de pedir que invistam na nossa juventude. Não custa caro manter um projeto esportivo. Caro é manter um presídio funcionando. É aquela velha frase: ‘É melhor prevenir do que remediar’. Temos vários exemplos de garotos que largaram os vícios prejudiciais à saúde, pois perceberam a importância do esporte em suas vidas. Precisamos de pessoas comprometidas com nossa sociedade. Para os meninos e meninas sonhadores, cito a frase ‘O impossível é apenas questão de opinião’. Temos o exemplo do Eykman, que passou por nosso projeto no Canivete, atuou como levantador da Seleção Brasileira de Voleibol e hoje joga profissionalmente no Qatar, lá no continente asiático. Então, tudo é possível. É preciso sonhar, treinar, batalhar e nunca desistir. Tudo é possível ao que crê. Tenham fé em Deus e depois em vocês mesmos. Não parem diante das dificuldades. Só alcança a vitória aquele que luta até o fim. 



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