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O capixaba que transformou 12 cruzados em milhões

14 de Agosto de 2017 Autor: Caroline Pereira

O capixaba que transformou 12 cruzados em milhões

Conhecido por ser o homem que transformou 12 cruzados em milhões, David Portes saiu de Cachoeiro de Itapemirim, cidade onde nasceu, para conquistar o mundo, dando palestras sobre sua história de superação e empreendedorismo. Embora tenha ganhado fama como um ex-camelô que vendia doces, David era cortador de cana quando decidiu se mudar para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Lá, ele enfrentou diversos desafios – como o desemprego e a vida de morador de rua –, mas nunca se rendeu a eles.

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, o empresário lembra detalhes de sua história e dá dicas para quem almeja ter sucesso em um negócio. David esteve ontem (14) em Linhares para participar do 2º Fórum da Liberdade e Empreendedorismo, promovido pela Aliança Jovem, comitê da Associação para o Desenvolvimento de Linhares (Adel). Ele falou ao jornal CE com exclusividade. Confira: 

Jornal CE: Você saiu do Espírito Santo para ganhar o mundo...

David Portes: Sim. Países de cinco continentes já ouviram a minha história. Visitei várias regiões para contar minha trajetória de superação e meu trabalho com vendas e marketing – e olha que eu nunca estudei marketing. Hoje, tenho uma agência de publicidade e, na próxima semana, vou ingressar no mercado de cartões pré-pagos. Ou seja, minha história poderia ser resumida em “de banca [de doces] a banco”. 

Jornal CE: E como essa história começou?

David Portes: Tudo começou em 1986, período em que, na minha opinião, aconteceu a pior crise financeira do Brasil. Sai do Espírito Santo, onde trabalhava como cortador de cana e levava uma vida muito dura, para buscar crescimento. Nessa época, eu já era casado, mas fui para o Rio de Janeiro em busca desse sonho. Chegando lá, morei na Rocinha e trabalhei como motorista, mas tempos depois perdi o emprego e o barraco, já que não tinha dinheiro para pagar o aluguel. Fui despejado e minha mulher estava grávida do meu filho, Thiago, que hoje é quem toma conta das nossas empresas e já foi considerado uma das 30 mentes mais brilhantes do Brasil. Minha esposa estava no oitavo mês de gravidez e precisava tomar um remédio. No entanto, eu não tinha dinheiro. De repente, uma alma, a mando de Deus, me emprestou a quantia que eu precisava – 12 cruzados. Peguei aquele dinheiro e fui correndo para a farmácia, mas antes de chegar lá, lembrei que eu deveria tentar de novo. Eu queria vender, fazer alguma coisa, e a ideia que me veio no momento foi comprar um pacote de mariolas.  Era o que dava para comprar com aquele dinheiro. Corri um risco, mas dizem que o empreendedor é meio louco, tem que ter a ideia e colocá-la em prática. 

Jornal CE: Você começou a vender doces no mesmo dia?

David Portes: Sim! Comecei a vender ali mesmo, na mesma hora. Dobrei o meu capital e peguei os 12 cruzados do lucro e fui para a farmácia para comprar o remédio da minha esposa. Com os outros 12 cruzados comecei a minha história. 

Jornal CE: Como você conseguiu tornar a banca – que surgiu tempos depois – tão famosa?

David Portes: Pesquisando, colocando os produtos que os clientes queriam e oferecendo serviços diferenciados. Fazia o chamado “street marketing” (marketing de rua). Ainda na década de 80, lancei um serviço de tele-entrega, utilizando dois orelhões que ficavam perto da banca. Foi algo revolucionário para a época, pois ninguém fazia isso.  Em 1992, criei uma página na internet - que ainda está no ar - para divulgar os produtos, os lançamentos e os telefones do call center (dos orelhões). Eu contava com um parceiro que recebia os pedidos via computador, num prédio que ficava perto da banca. Esse parceiro jogava os pedidos pela janela e eu fazia a entrega. Tempos depois, também implantei um serviço de drive-thru. As pessoas não precisavam sair do carro para comprar doces na banca. Eu ia até elas pegar o pedido e fazer a entrega. Uma banca, em 1989, já fazia algo que o Mc Donalds desenvolvia nos Estados Unidos. 

Jornal CE: Seu foco sempre esteve voltado para o cliente?

David Portes: O cliente, para mim, era o fator mais importante. O cliente tem que ser atendido com requinte. Ele faz parte do negócio. Eu sempre falo: nunca engane o cliente. Não o subestime, porque Deus perdoa, mas o cliente não. É preciso encantá-lo e fazer de tudo para que ele volte a comprar com você. 

Jornal CE: Esse é o segredo do seu sucesso?

David Portes: Sim, somado à perseverança, à honestidade e à ética. Precisamos tratar o cliente com carinho, pois é ele que vai trazer outros clientes. 

Jornal CE: E o que aconteceu depois que você abriu a banca? Como os seus negócios evoluíram?

David Portes: Meu primeiro empreendimento de verdade foi um depósito de doces, que foi o que, de fato, me deu status de empreendedor. Abri um depósito para que outros comerciantes adquirissem produtos a um preço mais barato. Nesse período, eu também comecei a dar dicas de marketing para outros camelôs e comerciantes de rua.  

Jornal CE: Pode contar uma dessas dicas?

David Portes: A da bala Halls é muito legal. Um garoto vendia uma média de cinco caixas dessa bala no ônibus, mas, certo dia, ele me disse que as vendas tinham caído para apenas três caixas. Ele perguntou se eu teria uma estratégia para ele. E por que não ajudá-lo?  Afinal, se ele vendesse mais, compraria mais no meu depósito. Sugeri que ele entrasse no ônibus dando bom dia, com um sorriso no rosto e um discurso, que dizia: “Senhoras e senhores, bom dia. Eu não sei falar, eu não sei cantar, eu só sei latir: ‘halls, halls, halls’ (imitando latidos de cachorro)”. A partir de então, ele começou a vender mais caixas todos os dias, pois as pessoas, quando ficam alegres, compram mais. Essa foi uma das primeiras estratégias que eu criei e que se tornou um sucesso. São dicas que vou inventando. Hoje, tenho uma agência que conta com uma equipe profissional e ainda ajudo com algumas ideias. 

Jornal CE: A banca ainda existe?

David Portes: No momento não, mas estou bolando uma ideia para reabri-la num novo formato. 

Jornal CE: Você acha que, assim como na década de 80, a palavra de ordem dessa atual crise é empreender?

David Portes: Sim. Se você não arriscar, ficar parado e fazer as mesmas coisas, o resultado também será sempre o mesmo. É preciso ser criativo, buscar um diferencial, ser perseverante, acreditar no sonho e ter paixão. É na crise que a gente cria bons negócios. 

Jornal CE: É preciso ter uma grande quantidade de dinheiro para empreender?

David Portes: Não. A pessoa pode ser vendedora de roupas, de doces. O importante é fazer isso com amor, acreditando num sonho. É difícil, mas a vida só é dura para quem é mole. Se a pessoa tem atitude, coragem, perseverança e acredita que pode chegar lá, ela, de fato, vai chegar. Eu comecei do nada, morando na rua. Eu sequer tinha um endereço. Mesmo assim, eu tinha 12 cruzados e fui buscar o meu sonho. Eu tinha o sonho de vencer e venci.  

FOTO: Com sua história de superação, David Portes se tornou um dos palestrantes mais importantes do Brasil (Créditos: Caroline Pereira) 



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