Jornal Correio do Estado - O Jornal que todo Mundo lê

Notícias - Entrevista

Linharenses provam que é possível pai e filhos trabalharem de forma amigável e produtiva

11 de Agosto de 2017 Autor: Caroline Pereira

Linharenses provam que é possível pai e filhos trabalharem de forma amigável e produtiva

Além de exercer as funções paternas dentro de casa, alguns chefes de família também fazem o papel de patrões de seus filhos no horário comercial. É o caso de Tarcisio Helmer, que conduz uma empresa do ramo imobiliário em Linhares ao lado da esposa, Creusa Viguini Helmer, e dos dois filhos, Rômulo Viguini Helmer e Ramiro Viguini Helmer.

Por mais que exerça uma função de liderança, Tarcísio demonstra ter preferência por manter um diálogo aberto e amigável com os filhos, inclusive durante o expediente. Mesmo que existam cobranças, ele acredita que um filho não deve temer o pai, e sim respeitá-lo.

Já os rapazes, embora tenham outras possibilidades de carreira, decidiram, ainda bem jovens, ingressar no negócio da família e acreditam que essa boa relação com o pai – e também com a mãe – é percebida e admirada até pelos demais funcionários.

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, pai e filhos compartilham detalhes dessa parceria e dão dicas para quem deseja alcançar o mesmo patamar de confiança.   

Jornal CE: A empresa já nasceu numa estrutura familiar, pois foi fundada por você [Tarcisio] e sua esposa. Mas você, de fato, imaginava que um dia teria o envolvimento dos seus filhos? 

Tarcisio: Sempre sonhei em tê-los atuando no negócio. Embora eu tenha um pouco de preocupação, pois a empresa não é grande, sempre pensei que ela poderia abrigar a família toda. Mesmo assim, sempre deixei o caminho livre para que eles seguissem outro destino, caso desejassem. 

Jornal CE: E em que momento os filhos começaram a se envolver com os assuntos da empresa? 

Rômulo: Eu estudei em outra cidade. Fiz engenharia civil, trabalhei na área por algum tempo e depois decidir retornar para Linhares. Por mais que esse não fosse o meu plano inicial, o crescimento do setor imobiliário aconteceu enquanto eu estava na faculdade. E nesse período, a nossa empresa cresceu também. Por isso, tempos depois da minha formatura, que ocorreu no final do ano de 2010, resolvi voltar e trabalhar com o meu pai. Ainda que eu não tenha escolhido o curso por conta da empresa, acabou coincidindo. Por fim, a faculdade não foi desperdiçada. 

Ramiro: Comigo foi um pouco diferente. Eu comecei a trabalhar na empresa ao final do Ensino Médio e cheguei a conciliar os estudos da faculdade com o trabalho. Isso aconteceu entre os anos de 2009 a 2010. Logo me identifiquei com o negócio e atuo nele desde estão.  

Rômulo: Ramiro está aqui há sete anos e eu há cinco. 

Jornal CE: Como estão estruturados os papéis dos filhos e como vocês se reportam ao pai? 

Rômulo: Nós sempre atuamos em duas frentes de trabalho: vendas, que fica comigo, e aluguel, que está sob a responsabilidade do Ramiro. Nós ajudamos a coordenar esses trabalhos, mas sempre reportando ao meu pai, que gerencia todas as áreas. No entanto, hoje contamos com menos funcionários e estamos tentando nos envolver mais com todas as funções, como as da área financeira, por exemplo.  Dessa forma, poderemos assumir qualquer trabalho sempre que for necessário.  

Jornal CE: É fácil dissociar o pai do gestor, ou às vezes os papéis se confundem? Deve ser difícil não chamá-lo de pai no trabalho... 

Rômulo: Aqui, nós nos tratamos como pai, irmão, etc, mas sabemos não é o ideal. Contudo, isso acaba gerando um sentimento de família na empresa, e os funcionários gostam. É claro que, de vez em quando, meu pai, como gestor, tem que tomar atitudes com a gente como se não fôssemos filhos, e sim funcionários. 

Tarcisio: Mesmo mantendo a nossa relação de família, tenho que ser o mais profissional possível. É claro que, por vezes, é difícil separar os papéis, mas na medida do possível tenho conseguido; sempre com muita conversa, educação e respeito. 

Ramiro: Um dos nossos desafios é tentar separar a casa e o trabalho. O que a gente já fez, e ainda tenta fazer, é não levar assuntos do trabalho para casa. Tínhamos certa dificuldade de fazer isso e trabalhávamos quase todo o tempo. Agora está dando certo. Já melhorou bastante. 

Jornal CE: Vocês acreditam que uma gestão familiar acaba sendo uma vantagem para o negócio de vocês?  

Tarcisio: Percebo que, para o mercado, soa bem ser uma empresa familiar. Isso transmite certa segurança para o cliente. No ramo imobiliário, é comum ver famílias gerindo o negócio. Boa parte das imobiliárias é de origem familiar.  

Jornal CE: Qual é o significado e a importância de ter os filhos trabalhando com você?  

Tarcisio: Sinto muito orgulho de ter iniciado o negócio e saber que ele consegue acolher a família, os filhos. Sempre sonhei com isso, até antes da minha esposa. Ela tinha certa resistência por questões de segurança, e eu até entendo, afinal, se o negócio vai bem, ótimo, mas e se o oposto acontece? Já que, ao longo dos anos, temos experimentado uma estabilidade, me sinto orgulhoso e realizado profissionalmente por ter proporcionado essa oportunidade para eles. A gente vive num momento de crise, de desemprego, mas aqui, na empresa, mesmo que ela não seja grande, conseguimos garantir a subsistência da família.  

Jornal CE: Vocês, filhos, devem ouvir muitos comentários de que é fácil trabalhar no negócio do pai, da família. Isso é verdade?  

Rômulo: Na verdade não é fácil. O fato de a empresa ter sido fundada por ele e por minha mãe faz as pessoas associarem a imagem do negócio aos nossos pais. Estamos aqui há menos tempo. Por isso, não temos o poder de resolver tudo, já que a empresa está ligada a eles. Mas quanto à cobrança e ao relacionamento, para a gente é muito tranquilo.  Às vezes, outros amigos, que trabalham com o pai, reclamam que a cobrança é muito maior em relação a horário, função, etc. No entanto, para a gente isso nunca foi um problema. Resolvemos tudo muito bem, inclusive a divisão das tarefas.  

Ramiro: O desafio, para nós, talvez seja dar continuidade à história. Parece fácil trabalhar com pai, mas temos a responsabilidade de manter o negócio. Pegar algo funcionando pode até ser fácil, mas mantê-lo é difícil.  

Rômulo: As pessoas relacionam a imagem da imobiliária aos nossos pais. Às vezes, a pessoa vem aqui, precisa resolver algo que nós podemos solucionar, mas prefere falar com o meu pai. Mesmo assim, sabemos que a confiança das pessoas virá como tempo.  

Tarcisio: Mas isso já mudou bastante. É importante lembrar que a empresa levava o meu nome. Apesar de o Rômulo ter dito que muitas pessoas ainda preferem me procurar, hoje já ouço comentários positivos de pessoas que resolveram questões [da empresa] com os meus filhos. Isso é bom, pois elas estão adquirindo uma maior confiança neles. Por diversas vezes, sou abordado em alguns locais e recebo elogios a respeito do atendimento prestado pelos meus filhos, e isso me deixa muito orgulhoso.  

Jornal CE: Que conselhos vocês dariam para pais e filhos que atuam juntos, mas que ainda não têm um bom relacionamento no trabalho?  

Rômulo: Eu, até por experiência própria, acho que o filho não deve assumir um cargo de gerência logo que começa a trabalhar na empresa do pai. Para ocupar um cargo mais elevado, é importante começar de baixo, até para que os outros funcionários te respeitem também. Por mais que o filho saiba que vai chegar à liderança rápido, é importante entender os demais serviços.  

Ramiro: Aqui, nós nunca precisamos de uma ajuda externa. Porém, conversando com algumas pessoas, percebo que, para muitos, o ingresso no negócio do pai é um pouco difícil. Já convivi com pessoas que passaram por processos de sucessão, mas enfrentaram dificuldades, tanto de diálogo quanto de aceitação, entre outros problemas. Então, talvez a saída seja buscar um acompanhamento externo para promover essa sucessão de uma forma mais tranquila, não apenas para o filho que está chegando, mas também para o pai, que vai sair. No nosso caso não foi necessário, mas creio que esse é um bom conselho. 

Tarcisio: Acredito que os filhos devem respeitar o pai, mas não precisam ter medo dele. Meus filhos nunca tiveram dificuldades de falar algo para mim. Sempre ouvi, ajudei e orientei no que pude, sem aquela premissa de que eu mando e eles obedecem. Isso acabou gerando um bom ambiente de trabalho e nossos funcionários entraram nesse mesmo barco. Somos uma família!



    Comentários (0) Enviar Comentário