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“Ganhei experiência, força e coragem”, diz Carmen Rigoni, um ano após o incêndio da loja Ponto de Luz

01 de Julho de 2017 Autor: Caroline Pereira

“Ganhei experiência, força e coragem”, diz Carmen Rigoni, um ano após o incêndio da loja Ponto de Luz

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, ela relembra a tragédia ocorrida no dia 20 de junho de 2016 e diz que a loja vai voltar a funcionar no endereço original

Há pouco mais de um ano, a tradicional loja Ponto de Luz, localizada na Avenida Getúlio Vargas, em Linhares, foi atingida por um incêndio. O acidente ocorreu na noite de uma segunda-feira (20 de junho de 2016) e mobilizou centenas de pessoas, que se dirigiram ao local para prestar apoio e solidariedade aos proprietários e funcionários. Quase dois meses depois, o estabelecimento, especializado no segmento de iluminação, voltou a abrir suas portas na Avenida Vitória e no começo do próximo ano deve retornar ao endereço original.  

Esse projeto futuro da empresa, bem como a história de superação de toda a sua equipe, foi relatada ao jornal Correio do Estado por Carmen Rigoni, sócia e diretora financeira da Ponto de Luz. Confira a entrevista completa:

Jornal CE: Como você recebeu a notícia do incêndio? Que lembranças você tem daquele dia?

Carmen Rigoni: Recebi um telefonema de uma vizinha da loja dizendo que a Ponto de Luz estava pegando fogo. Olhei da janela do meu apartamento e vi a fumaça. Fui imediatamente para lá. Quando cheguei, o fogo ainda estava pequeno. Até consegui entrar na empresa juntamente com o gerente, mas os bombeiros pediram que a gente saísse de lá para que eles dessem prosseguimento aos trabalhos. Não nos deixaram tirar absolutamente nada de dentro da empresa. Isso aconteceu por volta das 22h e eu permaneci em frente à loja. 

Jornal CE: Existe algum laudo que explica a origem do fogo?

Carmen Rigoni: Os bombeiros não descobriram a causa. Eles acham que pode ter sido um curto circuito, mas não foi comprovado. Nós perdemos um trabalho de 30 anos em duas horas. 

Jornal CE: Que providências você conseguiu tomar depois do ocorrido?

Carmen Rigoni: Nós tínhamos 24 funcionários e também um compromisso com eles, bem como com os nossos clientes e fornecedores. Por isso, já no dia seguinte, direcionei a equipe para outra loja que tenho no Centro de Linhares e fizemos uma reunião. Expliquei a situação e falei que aqueles que desejassem permanecer seriam bem-vindos, pois nós iríamos dar prosseguimento ao negócio. Mas aqueles que não quisessem permanecer estavam livres para seguir seu caminho. Ali também decidi, juntamente com o meu sócio, Ricardo Lopes, que iríamos reabrir a loja. Nossa situação financeira era boa na época do incêndio, mas nada havia sobrado dele, nem mesmo uma caneta. Contávamos apenas com um seguro, um nome e vários clientes, e muitos deles tinham produtos dentro da loja, que aguardavam apenas a retirada. Sem registros, tivemos que trabalhar com as lembranças do que havíamos feito. Montei um escritório improvisado e começamos a atender nossos clientes. 

Jornal CE: Como você deu prosseguimento aos trabalhos?

Carmen Rigoni: Os vendedores começaram a realizar os atendimentos por telefone e a resolver os problemas. Sete dias após o incêndio, teve uma feira do setor de iluminação em São Paulo (SP). Meu sócio viajou para fazer as compras e eu fiquei em Linhares para alugar um novo ponto e montar a loja. Cinquenta dias após o incêndio, conseguimos reabrir as portas em outro endereço. Nossos fornecedores contribuíram e mandaram a mercadoria que compramos em tempo.  Os clientes demonstraram muito carinho e permaneceram fiéis ao negócio. Foi um trabalho muito árduo. Anoitecer com uma empresa grande e amanhecer sem ter nada é algo muito pesado. O que sinto hoje, eu não senti naquele dia. Fiquei anestesiada. 

Jornal CE: E o que você sente hoje?

Carmen Rigoni: Uma emoção muito grande. Demorei um tempo para retornar ao local do incêndio, pois tinha muitas pendências para resolver. Não era tempo de chorar e sim de tomar decisões.  Se naquele tempo alguém me pedisse uma certidão ou a escritura do terreno, eu não tinha nada para apresentar. Tudo foi queimado. A empresa do seguro, por exemplo, solicitava esses papéis. Você aprende a lidar com esse tipo de situação e a passar por algo que nem tinha imaginado que iria acontecer. A gente tira forças de onde não tem. Foi um momento de muito aprendizado. 

Jornal CE: O que mudou na empresa depois do incêndio?

Carmen Rigoni: Antes, nossa empresa era um pouco maior, mas a forma de gerir o negócio continua a mesma. Aqui, nós priorizamos o conforto, a segurança e o bem-estar do nosso pessoal.  No momento do acidente, os funcionários nos abraçaram, foram para dentro daquela loja queimada e trabalharam, separando algumas coisas antes do local ser completamente fechado. Houve uma união muito grande, um amor muito grande. Eles não nos deixaram na mão e sim pegaram na nossa mão. Todos tiveram grandes oportunidades, mas nada foi melhor para eles do que permanecer conosco. Foi com eles que conseguimos montar a loja atual. Trabalhamos de dia, de noite e reabrimos, de maneira bem econômica. Nós tínhamos dinheiro, mas precisávamos honrar os compromissos. 

Jornal CE: O povo linharense também se comoveu com o incêndio. Vocês receberam apoio da população?

Carmen Rigoni: Recebemos ofertas de mais de 50 pontos para poder reabrir a loja, muitas delas de forma gratuita. Se eu precisasse de um caminhão para tomar alguma providência, eu conseguiria, sem ônus. O povo foi e até hoje é muito solidário. Passamos por essa prova do incêndio e vimos o quanto somos queridos e reconhecidos. 

Jornal CE: Quais são os planos para o futuro do negócio?

Carmen Rigoni: Vamos retornar para o nosso antigo endereço. Mudamos o modelo da loja para tirar aquela imagem do fogo, que ficou gravada na memória. O novo estabelecimento será mais amplo, com dois andares. A obra deve ser concluída em dezembro deste ano e a inauguração, provavelmente, será feita em janeiro de 2018. Quando nossa loja pegou fogo, estávamos organizando uma grande festa de 30 anos, mas a gente não teve uma festa, e sim um renascimento, de uma forma trágica e rica ao mesmo tempo. Às vezes, o que a gente ganha é maior do que a gente perde. Hoje eu sinto isso. Ganhei experiência, força e coragem. 

Jornal CE: Vocês estão no mercado há 31 anos. Qual é o segredo do sucesso?

Carmen Rigoni: O segredo é respeitar o cliente e trabalhar honestamente. Em momento algum nós deixamos de atender uma pessoa por qualquer coisa. A partir do momento em que você trabalha de forma honesta, você é reconhecido. Respeitamos nosso cliente, não importa quem ele seja ou o que deseja comprar. Tudo isso colabora para que a gente tenha sucesso no mercado, que é muito competitivo. Perdemos a loja no incêndio num momento de crise econômica, mas nós estávamos em equilíbrio. Cuidamos de tudo com carinho. Eu trabalho aqui todos os dias. Nossa equipe é extremamente eficiente, mas minha presença dá equilíbrio e conforto, tanto para os funcionários quanto para os clientes.

Foto: Caroline Pereira



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