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De Linhares para o mundo

09 de Setembro de 2017 Autor: Caroline Pereira

De Linhares para o mundo

Quem acompanha as edições do jornal Correio do Estado recebe, todas as terças-feiras, conselhos sobre economia e finanças do consultor Abel Fiorot. Linharense, Abel reside na região de Nova York, nos Estados Unidos, onde se dedica ao aperfeiçoamento profissional.  Mesmo assim, ele se mantém atualizado sobre os principais acontecimentos que impactam os brasileiros e escreve suas análises, observações e conselhos.

Em entrevista ao jornal Correio do Estado, Abel conta, em detalhes, o que motivou sua mudança para o país americano e como se deu sua adaptação, bem como a de seus familiares (Abel é casado e tem dois filhos). Ele também fala sobre viagens feitas a outros países, como China e Vietnã, e dá dicas para quem sonha em ter uma experiência internacional, entre outros conselhos.

Confira: 

Jornal CE: Como e por que você decidiu passar a viver no exterior, mais precisamente nos Estados Unidos? Pode revelar o que motivou essa mudança?

Abel Fiorot: Foi uma decisão planejada. Na verdade, sempre tive o desejo de vir estudar nos Estados Unidos. Digamos que é uma das metas que tinha para minha vida. Vinha com frequência aos EUA a turismo e também para fazer cursos de aperfeiçoamento, além de participar de feiras e congressos. No ano de 2014, decidimos em família que iríamos ter uma experiência internacional nos EUA. Desde então, me informei bastante e visitei várias instituições de ensino. No ano de 2016 fui aceito em algumas delas e escolhi a Sacred Heart University, uma universidade católica, que fica localizada na cidade de Fairfield, estado de Connecticut, bem próximo a Nova York. A Jack Welch College of Business possui ótima reputação e o Programa de ensino que estou fazendo é aderente aos meus interesses profissionais e acadêmicos, focado em finanças e gestão de investimentos. 

Jornal CE: E essa transição, essa mudança de vida, foi tranquila para você?

Abel Fiorot: Tem uma frase de autor desconhecido que eu gosto muito: “Toda mudança é difícil no início, desordenada no meio e graciosa no final”. Concordo com a frase, que resume um pouco do que vivemos quando decidimos morar no exterior. Os primeiros meses são realmente muito difíceis, pois é tudo novo. Trata-se de um verdadeiro recomeço. Tornar-se novamente um estudante, conquistar o seu crédito em um novo país, criar uma reputação, tudo isso leva tempo. No meio do caminho as coisas vão se encaixando, às vezes de forma não tão organizada como gostaríamos, mas vai se desenvolvendo e com o tempo, a experiência e a maturidade, você acaba colhendo os frutos de todo o esforço. A recompensa é sempre positiva. 

Jornal CE: Você e seus familiares já se adaptaram bem à realidade americana?

Abel Fiorot: Já estamos há mais de um ano nos EUA e digamos que estamos adaptados sim à realidade americana. A maior preocupação é com a família, principalmente com as crianças. Os meus filhos estão adorando a experiência. O interessante é ver como eles aprendem rápido o inglês. O meu filho mais novo, Arthur, tem a melhor pronúncia do inglês da casa. Detalhe, ele nunca tinha estudado inglês no Brasil. Em cerca de seis meses ele já conseguia falar direitinho o idioma de Shakespeare. 

Jornal CE: Você, como consultor financeiro, teve boa receptividade por parte dos clientes que vivem nos Estados Unidos – americanos ou não?

Abel Fiorot: Fui muito bem recebido na comunidade acadêmica e também por várias pessoas da comunidade brasileira que vive nos EUA. Aqui, minha atividade profissional é vinculada a um banco de investimentos, localizado na região de Nova York, onde desenvolvo projetos aderentes ao meu programa educacional, via CPT – Curriculum Practical Training. Quando você faz um Mestrado ou Doutorado nos EUA você tem esta oportunidade de trabalhar em empresas americanas, em áreas de acordo com o programa que está estudando. Também fui muito bem recebido no banco. O banco é internacionalizado e possui colaboradores de diversas partes do mundo, além de possuir escritórios em vários países, inclusive no Rio de Janeiro. A experiência em trabalhar em um banco de investimento nos EUA é sensacional, tanto em termos de aprendizado e de desenvolvimento de networking. 

Jornal CE: E quais são as atribuições de um consultor financeiro? O que você faz e como seu trabalho pode contribuir para o bom andamento de um negócio?

Abel Fiorot: Um consultor financeiro atua em vários projetos dentro de uma empresa. A atuação vai desde a estruturação dos controles financeiros até a implementação de ferramentas mais avançadas, como o Balanced Scorecard e o EVA – Economic Value Added. A maior atribuição do consultor financeiro é auxiliar no processo de tomada de decisão empresarial. Boas decisões financeiras geram bons resultados. Portanto, o foco é todo na parte analítica do processo de tomada de decisão, minimizando os riscos e custos inerentes, de forma que a empresa consiga maximizar os seus resultados e lucros. Um consultor financeiro também atua na avaliação do negócio (valuation), análise de investimentos, gestão de custos e planejamento empresarial. Quando atua na área de gestão de investimentos, auxilia e desenvolve estratégias para os portfólios de aplicações financeiras de seus clientes. 

Jornal CE: Sua experiência internacional inclui ainda passagens por outros países, como China e Vietnã. Pode nos contar um pouco do que você viu nesses locais?

Abel Fiorot: Sempre viajei muito. Conheço vários países e acredito que viajar é um investimento, pois expande sua visão de mundo e amplia, de fato, os horizontes. Estive na China e no Vietnã no ano de 2008. Tem um pouco de tempo, mas foi a viagem mais exótica que fiz, talvez pela diferença cultural e de costumes. Eu vi uma China em constante transformação, construções em toda parte. Um detalhe que me chamou atenção foi o investimento maciço em infraestrutura. Um país que quer ser potência necessita investir em infraestrutura, portos, aeroportos, rodovias etc. Infelizmente este é ainda um grande gargalo no Brasil. Na ocasião, fomos em uma missão empresarial para buscar oportunidades de importação de produtos para o Brasil. Detalhe que o câmbio era de U$ 1.00 = R$ 1,60. Logo depois, o cenário mudou completamente, o câmbio subiu bastante e a importação deixou de ser um negócio tão atrativo. É o dinamismo do mundo dos negócios. Vivemos em um mundo dinâmico, que muda em uma velocidade incrível. 

Jornal CE: Sua visão a respeito do Brasil mudou após a sua ida para os Estados Unidos? Se sim, o que mudou?

Abel Fiorot: Sim, definitivamente. Quando se vive em um país desenvolvido, o senso crítico fica mais aguçado. A pergunta que sempre me faço é: será que um dia o Brasil contará com o mesmo nível de qualidade de vida que temos aqui nos EUA? Esta pergunta me instiga. Eu acredito no Brasil. Sei que é um país de potencial, mas ainda está muitos anos atrás em desenvolvimento. Os EUA são uma verdadeira potência. As coisas por aqui funcionam, o empreendedorismo é incentivado, as leis funcionam e não existe impunidade. Meu sonho é que o Brasil chegue ao nível dos EUA um dia e acredito que isto é possível sim. Só depende de educação e muito trabalho.  

Jornal CE: Mesmo morando fora, você costuma realizar algumas visitas a Linhares.  O que você faz quando vem para cá?

Abel Fiorot: Neste período que estou morando nos EUA estive duas vezes em Linhares. Basicamente, vou para ver minha família, minha mãe e meu irmão. Além disto, aproveito para rever os amigos e resolver questões particulares de negócios. É sempre muito bom visitar Linhares. Sou linharense nato e independente de onde esteja morando, sempre levarei com carinho o nome de minha cidade natal.  

Jornal CE: Vocês e seus familiares sentem falta de algo daqui do Brasil e/ou de Linhares? Se sim, pode revelar o que?

Abel Fiorot: Sim, claro. O que mais sinto falta é da comida. Ainda não me acostumei com a comida americana. Quando vou ao Brasil eu como até demais para compensar a saudade do tempero de nossa comida. Apesar de existirem alguns ótimos restaurantes brasileiros nos EUA, nada se compara quando comemos no Brasil. Além disto, moramos em uma região muito fria. No inverno estávamos com 10 graus Celsius negativo e o povo todo nas praias no Brasil. E hoje, com as redes sociais, os amigos ainda tiram selfie tomando aquele chopp gelado e enviam pro meu celular. Assim não tem jeito. A saudade bate forte (risos).  

Jornal CE: Muitos brasileiros sonham em ter uma experiência internacional ou em buscar melhores condições de vida no exterior. Que conselhos você daria para essas pessoas?

Abel Fiorot: Eu passo somente um conselho: planejamento. Planejar é decidir antecipadamente. O primeiro passo é decidir. Estudar a cultura, as leis e os costumes do país que pretende ir morar. Além disto, é importante conversar com pessoas que já moram no país que você pretende ir morar. No meu caso, antes de me mudar para os Estados Unidos, fiz três visitas para conhecer e conversar com pessoas de três diferentes regiões do país. Isto me ajudou a decidir onde iria estudar e morar. Ter uma experiência internacional é muito importante para a vida pessoal e profissional. Nos Estados Unidos então é fantástico. 

Jornal CE: E quais seriam as vantagens, e quem sabe desvantagens, de morar fora do País?

Abel Fiorot: As vantagens são inúmeras. Você desenvolve um networking global. Todo o mundo quer vir estudar nos EUA. Tenho colegas de classe da Arábia Saudita, da Itália, da Índia, da África, além de americanos. Você aprende ter uma visão global e interage com pessoas de várias nacionalidades. Isto lhe dá a flexibilidade necessária para poder atuar em empresas globais e até mesmo ser um empreendedor de classe mundial. Neste período que estou aqui já participei de vários eventos, seminários e congressos. Você desenvolve novas habilidades e competências profissionais. Além disto, as empresas brasileiras valorizam muito uma experiência internacional. Outro ponto positivo é a meritocracia. Os americanos valorizam muito o mérito individual. Fiquei muito feliz e honrado por receber o “Dean´s Leadership Award”, como o melhor aluno do meu programa de Mestrado em Finanças e Gestão de Investimentos. Recebi um diploma e o diretor veio me cumprimentar, tendo menção honrosa no dia da cerimônia de graduação, ocorrida no dia 13 de maio de 2017. Isto motiva e estimula o nosso avanço. Sinceramente, não vejo desvantagens em uma experiência no exterior. Você só tem a ganhar. 

Jornal CE: Recentemente, você gravou vídeos para um canal no Youtube. Esse é o seu próximo plano profissional? E o que mais você pretende realizar na sua carreira?

Abel Fiorot: Na verdade o meu canal do YouTube já existe há alguns anos. Eu sempre gravo vídeos semanais e publico no meu canal, geralmente comparando alguns aspectos econômicos do Brasil e dos Estados Unidos. Eu tenho uma coluna semanal chamada “Economia & Negócios” numa rede de TV. Recentemente, gravei novos vídeos exclusivos, com uma melhor produção, para oferecer informações com melhor qualidade de áudio e vídeo para todos os que me acompanham. Um dos meus próximos planos é finalizar o meu livro, que pretendo lançar ainda no primeiro semestre de 2018. Além disto, tenho planos de empreender aqui nos EUA. Utilizar todo o conhecimento e experiência adquiridos, para desenvolver negócios e empresas por aqui, nunca deixando de atender o público brasileiro. O mundo é plano e com a facilidade que a internet nos proporciona hoje, posso atender um cliente de Linhares ou Vitória, mesmo morando em Nova York ou Miami, por exemplo. 

Jornal CE: Você sempre encerra os textos de sua coluna com a frase “Vamos em frente”. Você parece ter uma visão bastante positiva e progressista a respeito da vida e até mesmo da realidade do Brasil. É isso mesmo?

Abel Fiorot: Com certeza. A expressão “Vamos em Frente” é meu lema e filosofia de vida. Não podemos mudar o nosso passado, mas temos condições de criar o nosso futuro. Portanto, não adianta ficar remoendo o que passou. É preciso olhar pra frente. Ser pró-ativo e buscar atingir os seus objetivos de vida. Se errou, acerte. Se caiu, levante. Se chorou, sorria. Todos nós temos momentos de altos e baixos, mas eu sempre considero cada momento como um aprendizado. Mesmo nos momentos mais difíceis, eu visualizo uma situação melhor lá na frente. Desta forma, não existe outra escolha, a não ser irmos em frente.  

Jornal CE: Por fim, a pergunta que muitos linharenses gostariam de fazer: você pretende retornar para a cidade para aplicar todo o conhecimento adquirido nos Estados Unidos?

Abel Fiorot: Engraçado que muitas pessoas me fazem esta pergunta. Eu adoro Linhares, amo a minha cidade, mas nos meus planos de curto e médio prazo não considero voltar a morar em Linhares. Eu sempre terei um vínculo com a cidade, interagindo com as minhas colunas, vídeos e redes sociais. Eu não preciso necessariamente morar em Linhares para contribuir com o seu desenvolvimento. Além disto, sempre estarei visitando a cidade, com frequência. Se um dia eu voltar para Linhares será para realizar outra grande meta de minha vida. O que me cabe agora é aproveitar bem a oportunidade que estou tendo de aprimorar meu lado profissional. Tudo tem o seu tempo. Não podemos queimar etapas nesta vida. A escada deve ser percorrida com firmeza e segurança, o importante é evoluir Step by step (Passo a Passo). Por isso, sempre digo: Vamos em frente!

FOTO: ARQUIVO PESSOAL



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