Jornal Correio do Estado - O Jornal que todo Mundo lê

Notícias - Educação

Professor surdo de Linhares sonha em cursar mestrado

26 de Setembro de 2017 Autor: Caroline Pereira

Professor surdo de Linhares sonha em cursar mestrado

Em todo o Brasil, o dia 26 de setembro promove uma reflexão sobre a inclusão de pessoas com deficiência auditiva na sociedade. Graças ao avanço da legislação e do empenho de profissionais de diversos setores, muitas pessoas surdas conseguem ter acesso ao ensino de qualidade e podem buscar melhores oportunidades, tanto na vida profissional quanto na pessoal. Um exemplo é o do estudante de pedagogia, Cláudio Eça da Silva, que hoje já atua como professor instrutor surdo na EMEF Castelo Branco, facilitando o ensino da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS).

Companheira de trabalho de Cláudio, a professora bilíngue e intérprete de LIBRAS, Jaqueline Duque, explica que todo estudante surdo tem direito a estudar em salas de aulas regulares – na companhia de alunos ouvintes – com o suporte de um professor intérprete de LIBRAS. Ela ressalta que no contraturno, os surdos participam ainda de atividades direcionadas em salas de recursos. Para estudantes do 1º ao 5º ano da rede municipal de Linhares, essas aulas acontecem na escola Castelo Branco, quando então Cláudio tem a oportunidade de atuar com professor.

Com a interpretação de Jaqueline, o jornal Correio do Estado conversou com o Cláudio para conhecer sua história de superação e planos na área da educação.  Confira trechos dessa conversa: 

Jornal CE: Na sua infância e juventude, você teve acesso ao ensino de qualidade, que muitas crianças surdas conseguem ter hoje, com o suporte de professores capacitados e salas de recursos?

Cláudio: Eu nasci surdo e não cheguei a passar pela sala de aula na educação infantil. Quando comecei a estudar, aos oito anos de idade, eu não contava com um intérprete de LIBRAS. Na verdade, eu não conseguia me comunicar com ninguém, nem com a minha própria mãe. Era muito difícil e eu sofri muito, pois me sentia sozinho e discriminado. Minha mãe contratou um professor particular para me ajudar. Na verdade, ela queria que eu aprendesse a falar de qualquer jeito. Ela pagava essa pessoa para me ensinar a ler e a escrever, porém, eu tinha muita dificuldade. Uma ou outra palavra eu até pude aprender, mas só conseguia estabelecer uma comunicação por meio de gestos. 

Jornal CE: Quando essa situação mudou?

Cláudio: Em 2002, quando a LIBRAS foi oficializada como a língua utilizada pelos surdos no Brasil, passei a ter mais contato com outros surdos. Mesmo assim, eu já tinha 14 anos e foi muito difícil começar a aprender a língua de sinais. E até hoje, eu não compreendo a língua portuguesa de forma profunda, o que é normal para um surdo, já que o português é a nossa segunda língua. Por isso, hoje a minha vontade é ser professor, para que eu possa fazer pelas minhas crianças o que não foi feito por mim. Eu as incentivo a aprender a língua de sinais, e penso: “quem dera se tivesse sido assim comigo”. 

Jornal CE: Aonde você pretende chegar na sua carreira? Tem mais planos para a sua vida profissional?

Cláudio: Um dos meus sonhos é terminar minha graduação. Estou no sexto período do curso de pedagogia, mas eu tenho vontade de fazer uma pós-graduação ou um mestrado. Sei que é difícil, porém, eu quero aprimorar minha capacidade e qualidade no trabalho. Penso que é possível! É bom lembrar que existem no Brasil muitos mestres e doutores que são surdos. 

Jornal CE: Você, assim a professora Jaqueline, participa de um curso ministrado pela própria Secretária da Educação que, dentre os diversos objetivos, capacita os professores para o ensino de alunos surdos. Como tem sido essa experiência?

Cláudio: Temos aprendido novas estratégias no curso para poder trabalhar melhor a questão do ensino de LIBRAS, adaptando o ensino para as necessidades de cada aluno. Alguns aprendem rápido, outros demoram um pouco mais para compreender o que eu quero passar. Mesmo assim, acredito que com esse trabalho e com as novas estratégias que aprendemos no curso, o resultado será ainda melhor. 

Jornal CE: Que recado você daria para os pais de pessoas surdas ou até mesmo para os próprios surdos que ainda veem muitas limitações nessa deficiência?

Cláudio: Gostaria de dizer para os pais que eles devem apoiar os seus filhos e respeitar a subjetividade de cada um, porque ninguém é igual. Penso que o surdo pode escolher a profissão que ele quer e não precisa ser, necessariamente, um professor. O surdo pode ter uma vida independente e precisa ter sua autoestima elevada, acreditando em si mesmo. Sempre falo com os meus alunos que eles não precisam pensar que eles são coitados, por conta dessa deficiência. Eles devem aprender a ter responsabilidade e autonomia. É preciso ter coragem para enfrentar as dificuldades e se profissionalizar. Se a gente quer igualdade, também devemos ter responsabilidade.

FOTO: Os professores Cláudio e Jaqueline durante uma aula da sala de recursos para alunos surdos (Foto: Arquivo Pessoal) 



    Comentários (0) Enviar Comentário