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Prática e rentável, apicultura é alternativa de diversificação agrícola no ES

29 de Agosto de 2017 Autor: Caroline Pereira

Prática e rentável, apicultura é alternativa de diversificação agrícola no ES

Em tempos de diversificação agrícola, o homem do campo capixaba encontra na apicultura uma opção a ser considerada. A atividade, que consiste, basicamente, na criação de abelhas com o objetivo de produzir mel, própolis, geleia real, pólen e cera de abelha, conta com cerca de 250 produtores capixabas organizados em associações, segundo estimativas do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Incaper). Porém, há em torno de 1200 produtores envolvidos na atividade, que recebem assistência técnica do Instituto. Ainda segundo o Incaper, a produção anual de mel do estado é de, em média, mil toneladas por ano, e a produção média de uma colmeia é de 25kg a 30kg.

O extensionista do Incaper, Alex Fabian Rabelo Teixeira, diz que a apicultura possui inúmeras vantagens do ponto de vista ambiental e econômico, já que é uma atividade sustentável e que tem baixo custo de implantação e manutenção. Além de gerar uma renda satisfatória, a apicultura, segundo o especialista, não exige muito tempo de dedicação e nem grandes áreas de terra disponíveis. Por isso, ela pode ser uma boa alternativa até mesmo para pescadores e ribeirinhos, que não contam mais com a renda proveniente da pesca no Rio Doce.  

Recentemente, o Incaper ministrou o curso de apicultura básica na comunidade de Degredo, em Linhares, atendendo a uma demanda dos próprios moradores e seguindo a aptidão apícola da região, que possui uma excelente florada nativa – fonte de pólen e néctar para as abelhas alimentarem as colônias.

Fabian ressalta que, do ponto de vista do meio ambiente, a principal condição para o sucesso da apicultura é a existência de boas floradas, que podem ser de espécies vegetais nativas e/ou cultivadas. “A florada deve ser concentrada e abundante durante certo período do ano. São bons exemplos de floradas conhecidas dos apicultores capixabas: camará, assa-peixe, aroeira, café, eucalipto e seringueira”, cita. 

Primeiros passos e investimento

A pessoa que se interessar por essa atividade deve, em primeiro lugar, conversar com um apicultor experiente e com um profissional técnico, conforme aconselha Fabian. Esses especialistas vão oferecer a orientação necessária e ajudar a conhecer o potencial apícola da região. “Feito isso, a pessoa deve fazer um curso de apicultura e procurar a associação de apicultores mais próxima do seu município”, completa.

O extensionista diz que o investimento inicial da apicultura está estimado em R$ 2 mil, valor que cobre os gastos com a compra de caixas, equipamentos de segurança (macacão, luvas, botas, etc) e itens complementares (fumigador, cavaletes, cobertura, etc).

No mais, é fundamental que a pessoa aprenda a criar abelhas africanizadas – com as capacitações fornecidas pelos institutos especializados, como o próprio Incaper – e que não seja alérgica ao veneno da abelha. “Enxames dessas abelhas são facilmente encontrados tanto nas zonas rurais com nas urbanas”, conta Fabian. 

Produtividade

Por depender das floradas agrícolas, a produtividade da apicultura pode variar ao longo do ano. O especialista do Incaper lembra que, no Espírito Santo, as floradas mais expressivas acontecem entre os meses de setembro a novembro.

O mel, que é o principal produto da apicultura, pode ser comercializado a R$ 12 o quilo, segundo Fabian. “Um apicultor inicial, com cinco colmeias, se produzir 20 quilos de mel por colméia no ano, terá um ganho de R$ 1.200. Se chegar a ter 100 colmeias, terá um rendimento de R$ 24 mil anuais”, exemplifica. 

Além de se beneficiar do mel, o extensionista ressalta que o apicultor também pode comercializar o pólen – cujo quilo chega a R$ 60 –, o própolis – que tem o extrato de 30 ml vendido a R$ 25, em média – e a cera bruta – cujo quilo pode ser sete vezes mais caro que o do mel. 

Abelhas podem aumentar a produção de outras culturas agrícolas

Mesmo com tantas possibilidades de produtos para fins de comercialização, Fabian revela que o serviço mais caro e importante exercido pelas abelhas, e que por vezes é ignorado, é a polinização dirigida, que leva à formação de frutos e sementes e pode aumentar a produtividade das lavouras. “Um bom exemplo para o nosso Estado é o café. Estudos indicam que a presença das abelhas africanizadas como visitantes florais do café pode representar um ganho de até 30% na polinização”, cita Fabian.

Por isso, ele acredita que todos cafeicultores capixabas deveriam evitar o uso de agrotóxicos durante a floração do café, permitindo a aproximação das abelhas que ficam próximas às plantações. “Deveriam também, quando necessário, contratar o serviço de polinização dirigida de um apicultor profissional. O agricultor paga as despesas do transporte e o período de permanência das colmeias próximas ao cultivo. Com isso terá um benefício de milhares de abelhas trabalhando na polinização do café”, completa.

Pesquisas feitas por professores do departamento de zootecnia da Universidade Federal do Espírito Santo, realizadas em uma fazenda produtora de café em São José do Calçado, comprovaram que houve aumento na produção do grão após a implantação da apicultura no local. O número de sacas por hectare saltou de 29,46 para 35,79.

Além da polinização dirigida, outros produtos e serviços oriundos da apicultura, mas que não são encontrados no Espírito Santo, estão ligados à produção e venda de abelhas-rainhas e de enxames.

Apicultor de Aracruz vive da atividade há cinco anos

Atualmente, a maioria dos produtores do Espírito Santo tem na apicultura uma atividade alternativa, que complementa a renda da propriedade rural. Contudo, existem vários apicultores capixabas que vivem exclusivamente desse trabalho. Um deles é o presidente da Associação dos Apicultores de Aracruz (APIARA), Lomir José da Silva, se dedica à atividade há cinco anos.

Antes de atuar na apicultura profissionalmente, Lomir, que estudou numa escola técnica, trabalhou em projetos da Secretaria Municipal de Agricultura voltados a essa atividade. Ele também participou de um congresso mundial de apicultura na Argentina e se envolveu na formação de associações de apicultores no Espírito Santo, entre outros trabalhos relacionados.

Atualmente, o apicultor tem na produção de mel e própolis a sua fonte de renda. Ele conta que possui 400 caixas de abelha, mas a expectativa é chegar a 1000 caixas no próximo ano. A pretensão dele é passar a comercializar o pólen e a geléia real.

Lomir diz que o mel capixaba tem boa aceitação e procura no mercado, especialmente o que tem origem na florada do café conilon. Ele diz que esse produto já é considerado uma iguaria.

Por esses e outros motivos, Lomir enxerga a apicultura como uma atividade vantajosa e que tem um grande potencial no Espírito Santo. Cabe ao interessado buscar apoio de institutos especializados (como o Incaper, o Sebrae e as associações), capacitação e avaliação de custos e de potencial da região.

FOTO: O aracruzense Lomir José da Silva se dedica exclusivamente à atividade há cinco anos (Foto: Arquivo Pessoal)



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